terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Navegar é preciso....

Acordei me perguntando: - Que fazer no Reveillon?
Fogos em Copacabana....nem pensar!!
Hotel Fazenda?
Grande ilusão!
Os hoteleiros deste segmento endoidaram e estão cobrando preços fora da realidade para um produto que não tem o por quê de custar tão caro.
Então...
Que fazer?
Me veio à mente viajar novamente num cruzeiro com destino ao Prata!
Comecei a ligar para as companhias de cruzeiros e, pasmem, 4 meses antes, todas as saídas para esta data já estavam lotadas. E a crise, onde está?
Liguei então para a opção mais cara do mercado, a Royal Caribbean, que talvez por esta razão, ainda tinha disponibilidade para alguns tipos de cabines.
Assim, decidi embarcar nesta idéia e passar o Ano Novo à bordo do Splendor of the Seas, um lindo navio, meio velhinho, porém, que servia para o meu propósito.
O embarque foi no porto de Santos, SP, dia 26/12, onde circulavam, sem exagero, 22.000 pessoas ao mesmo tempo, pois haviam 7 cruzeiros atracados desembarcando os passageiros que retornavam de viagem e embarcando os que partiriam nesta data.
Um caos total!
Muitas pessoas ficaram quase 5 horas em filas mostruosas, num calor intenso, e sem ter com quem reclamar, pois, simplesmente, todos os funcionários do porto quando inqueridos sobre aquele castigo, apenas davam de ombros e saíam de perto.
Como é possível não haver num porto como o de Santos, guichês de check-in prioritários, para os casos de idosos,  gestantes,  pessoas com crianças de colo, e portadores de necessidades especiais?
Isto não contraria as nossas leis?
Eiiii....Concais....se liga nesta triste realidade!
As absurdas taxas portuárias que são cobradas, bastam, com certeza, para que possam ser oferecidos serviços mais dignos a todos que utilizam o importante Porto de Santos.
Alô Presidenta Dilma!
Como podemos pensar em um futuro grandioso para esta importante fonte de receita chamada Turismo, se não nos preocupamos em cuidar do turista de forma a que recebam um atendimento mais cordial, seguro e respeitoso?
Passado este tormento, finalmente consegui subir as "abençoadas" escadas do navio, desejando chegar logo na cabine e poder relaxar do esforço e tensão investidos neste embarque tenebroso.
Minha cabine, embora sem varanda, era confortável e estava sempre arrumada e limpa, tendo uma janela por onde se podia ver o que estava ocorrendo do lado de fora, além do fato de que estava muito bem localizada no navio.
Face a tudo que aconteceu, obviamente que partimos com um atraso considerável para Buenos Aires.
No primeiro dia, todo em alto mar, nada de especial, somente almoçar, jogar Bingo na piscina, jantar e ir assitir a um show sem graça, de apenas uma atração, onde um equilibrista francês, coitadinho, deixava cair seguidamente seus instrumentos de trabalho.
Tinha ainda o Casino Royale, que era o melhor do navio, sem dúvida, e que reunia um grande número de pessoas todas as noites nos seus muitos caça-níqueis, roletas, mesas de poker, black-jack, e que era composto por um time de profissionais muito divertidos, embora houvessem alguns deles, oriundos de países do leste europeu, com a cara bem fechada e incapazes de abrirem um breve sorriso.
Muita gente curtiu as atividades da piscina, e para tanto, deveriam seguir como cordeirinhos às ordens dos animadores da equipe de entretenimento mais sem graça (e arrogante) que eu já vi até hoje....ô gente chata!
Esse lance de ficar gritar: - Aí Brasil!! Acho que é coisa para show folclórico, e não uma maneira apropriada de saudar alguém dentro de um cruzeiro 5 estrelas.
No restaurante principal, chamado The King and I, a comida era boa, porém, sem ser algo de deixar ninguem de queixo caído.
No outro, menos formal, localizado no deck 9, ao lado da piscina, era um tumulto e uma falta de organização tão grande, que me deixou impressionado como isto podia estar acontecendo num cruzeiro caríssimo de fim-de-ano?
Para se pedir uma coca-cola, era o fim do mundo, sem dizer que, quase no finalzinho do cruzeiro, a bendita da latinha vermelha acabou, então, dá-lhe de empurrar Sprite na galera. Que vergonha!
Praticamente, toda a comida num navio é feita com antecipação, o que significa dizer que toda esta quantidade de pratos fica pré-preparada e guardada em geladeiras especiais para serem servidos a cada dia, como se fossem produtos congelados que são levados ao micro-ondas para aquecerem.
Os destaques, a nível de qualidade, foram todos para as saladas, já que todos os componentes eram de boa qualidade, e os molhos razoavelmente bons.
Dentro do restaurante principal, mesmo havendo uma sequência hierárquica de chefias, ninguém se preocupava com nenhum detalhe, principalmente no que diz respeito às toalhas e aos guardanapos que eram "jogados" em cima das mesas sempre extremamente amarrotados.
Eu mesmo recebi um guardanapo furado, por onde passava um dedo inteiro, talheres sem serem polidos,  alguns até já bem velhos e tortos, e ainda taças e copos com marcas de dedos.
Um dos guardanapos do restaurante principal que havia sido colocado sobre meu prato, dobradinho, quando o abri, estava tão amarrotado, mas tão amarrotado, que eu imaginei a negligência e o despreparo do suposto profissional que havia feito aquilo.
Interessante, mesmo, é que isto não ocorreu na mesa do comandante e seus oficiais, quando eles jantaram numa das noites no The King and I, e quando eu aproveitei para ir checar este ponto e me deparei com um serviço de primeira qualidade, tudo bem passado, arrumado, novinho, etc.
O pianista que tocava no jantar do primeiro turno, e que iniciava sua apresentação as 19:30 hs, com menos de uma hora de trabalho, já fechava o piano e ia tocar em algum outro lugar, o que era um atitude totalmente inexplicável e incoerente, já que deixava um vazio sonoro incrível no salão e a sensação de que estavam descobrindo um santo para cobrir outro.
Aliás, à nível de atrações artísticas, nunca vi uma cara de pau tão grande como a dos organizadores deste cruzeiro, pois todos os shows apresentados eram de uma mediocridade digna de um cabaré da Lapa, sempre com as mesmas pessoas, tanto bailarinos, como cantores, que se resumiam em apenas quatro de cada especialidade, e que se revessavam em deprimentes aparições.
Para se ter uma idéia do ridículo das apresentações, a peruca usada por uma das cantoras, de cor marrom (acreditem, pois é verdade), era maior que a sua cabeça.
Ninguém suportava mais ter que ver e ouvir as mesmas pessoas todas as noites, o que implicou, claro, numa redução expressiva do número de espectadores a cada dia.
Será mesmo que eles não conseguiriam montar um bom espetáculo para este cruzeiro de Reveillon, com um bom mágico, um cantor(a) especial, tipo um tenor e um soprano, com cenários, atrações circenses, etc?
Uma coisa muito boa mesmo era poder sair ao convés, a qualquer hora, ver a espuma das ondas do mar, sentir a brisa refrescante batendo no rosto, olhar o horizonte, ou contemplar a lua refletindo sua luz na imensidão negra do oceano.
Em Buenos Aires, fomos a um lindo show de tango, o qual considero como sendo o melhor da cidade, chamado Piazzolla Tango, e que está localizado na Galeria Guermes, que liga as "calles" San Martin e Florida, bem no centro.
Esta galeria foi a primeira a ser construída na cidade de Buenos Aires, e foi nela que viveu por um tempo o famoso escritor Antoine de Saint-Exupéry, autor do Pequeno Príncipe (Principito, como é dito por lá).
O teatro onde acontece o show é uma preciosidade de detalhes arquitetônicos, com balcões, frisas, uma verdadeira miniatura do Colón, e no seu palco desfilam cantores e bailarinos de primeiríssima qualidade.
A orquestra, com 3 bandoliones, 1 piano, 1 contra-baixo e 2 violinos, davam um show a parte, tamanha a qualidade dos músicos e a forma apaixonada como tocavam seus instrumentos.
Aconselho a todos os amantes dos belos espetáculos, que visitem este local quando estiverem em terras portenhas, pois, músicas de Astor Piazzolla estão inseridas, claro, no espetáculo, porém, o show é composto pelo melhor do tango de todos os tempos.
Um bom restaurante para comer excelentemente bem, tanto no almoço como no jantar é o Tomo 1, localizado no velho Hotel Panamericano, na Av. Carlos Pellegrini, onde pessoas de uma mesma família se incumbem de preparar pratos excelentes, com muito requinte e qualidade, além de possuirem uma distinta carta de vinhos.
Assim, após uma breve visita à movimentada Plaza de Mayo e ao decadente Caminito (triste, mas é verdade), deixamos a cidade dos "hermanitos" e zarpamos para Montevidéo, onde não se tem muito o que fazer a não ser caminhar pela Av. 18 de julio, visitar o comércio, e ir ao Shopping de Punta Carretas.
Para quem aprecia uma carne "muy" especial recomendamos o Restaurante Palenque, localizado no Mercado del Puerto, onde estão inúmeros outros estabelecimentos gastronômicos que oferecem belos cortes de carne  preparadas na "parrilla" do tipo uruguaia, que, diferentemente da argentina, não são colocadas diretamente sobre o fogo, apenas peguam o calor pelas laterais.
Neste local pedimos um "bife de ancho con hueso", que veio no ponto certo, bem quente, e era de uma maciez impressionante.
Dali, continuamos o cruzeiro até o famoso balneário de Punta del Este, onde fazia um calor das Arábias.
Uma coisa que muito me surpreendeu foi o "abuso de poder" que observei dentro do Hotel Casino Conrad, onde 2 meras Coca-Colas custaram a bagatela de USD 18,00, e onde uma aposta mínima na roleta era de (pasmem) USD 10,00.
Mesmo assim, estava repleto (100 % de ocupação) de brasileiros considerados VIP's, e que tinham inúmeras mordomias oferecidas pelo casino por serem bons jogadores.
Creio que o nosso Brasil deveria deixar de ser hipócrita e legalizar o jogo o mais rápido possível, a fim de não deixar todo este povo sair do país para gastar seus dólares em terras estrangeiras, já que não existe nehuma diferença entre apostar num casino ou nos jogos existentes no país, tipo a Mega-Sena, a Quina, a Lotofácil, e todos os outros seus similares, como também as corridas de cavalo, a Loteria Federal, e no tão combatido "highlander" Jogo do Bicho, isto sem contar os inúmeros Bingos que ainda resistem bravamente na clandestinidade.
A noite de Reveillon, supostamente um Gala Night, foi de uma simplicidade ímpar, pois o que se viu ali era de uma cafonice e mal gosto total, sendo que à meia-noite um dos elevadores panorâmicos do navio pára no deck 4, onde se fazia a famosa contagem regressiva, e de dentro dele sai um cara magrelo, com cabelo loiro oxigenado, que vestia apenas um fraldão branco (amarrotado) e com uma chupeta na boca, simbolizando o Ano Novo que acabava de chegar.
Com certeza todos já adivinharam que se tratava de um dos bailarinos que fazia os shows, certo?
Pasmem, mas é isto mesmo!!
Imaginem que esta "coisa" foi entrevistado, filmado, e este "momento especial" foi inserido no DVD que estava sendo vendido e anunciado como uma "recordação maravilhosa das suas explêndidas férias".
Tétrico e ridículo talvez seja pouco para definir esta cena deplorável!!
Bolas brancas eram atiradas dos andares mais altos, e as pessoas abriam suas champagnes, desesperadas, como se fossem morrer caso não arrancassem as danadas das rolhas das garrafas.
O Diretor de Entretenimento do navio era um brasileiro que sempre se apresentava como "Eu sou o João".
Numa das noites, vestindo uma camiseta com a frente toda bordada de brilhosas lantejoulas (risos), dançava alucinado uma coreografia ensaiada, sob o ritmo dos anos 70, acompanhado de todos os seus pupilos, nas escadas que davam acesso ao deck 4, num local denominado Centrum, tentando incentivar as pessoas para entrarem naquele embalo.
Assim, após sete noites de viagem, vários Bingos sem graça, Karaokês inexpressivos, e que eram mais usados pelos próprios tripulantes do navio para se divertirem entre si, shows deprimentes e repetidas massas com molho marinara, salmão defumado e consommés de caldo Knnor, chegamos ao porto de Santos em baixo de um temporal digno de Sampa.
Conclusão e conselho:
Façam um cruzeiro na Europa, e vejam a diferença!
O que as empresas de atrativos marítimos oferecem para o turista brasileiro jamais será ofertado em qualquer outro lugar do mundo, pois todas sabem muito bem dos sérios problemas que iriam ter com as reclamações, mas, como aqui somos o 3° mundo, tudo é válido pois tudo é aceito.
Talvez, isto seja decorrente do fato de que muita gente que viajava no navio não tinha o conhecimento de coisas boas, ou até mesmo porque são poucos, no Brasil, aqueles que sabem exigir pelo que pagaram.
Nem sempre o silêncio quer dizer que aceitamos o que nos deram, mas apenas uma maneira de agir de algumas pessoas que têm o receio de passarem por chatas ou despreparadas.
Atenção tripulação!
Levantar âncora!
Vamos voltar agora para o sério e querido Velho Mundo!
Comecem passando muito bem as toalhas e os guardanapos, contratem mais pianistas e bons artistas para os shows, coloquem os vinhos na adega (vinho tinto servido na temperatura ambiente só são oferecidos nos cruzeiros que partem do Brasil), não esqueçam de comprar flores diferentes a cada porto para enfeitarem as mesas todos os dias, desenhem cardápios que ofereçam melhor comida, com qualidade e boa apresentação, contratem profissionais de verdade para todos os setores, e parem de ficar incentivando os passageiros a darem mais gorjetas, pois estas  já foram arrecadadas antecipadamente.
Ahhh, a tempo, coloquem artigos de qualidade para serem vendidos nas lojas, pois "xepa" de produtos asiáticos à USD 15,00, ninguém compra lá na Europa!
Hasta la vista hermanos!
Jacques .'.

2 comentários:

Ubirajara disse...

Maravilhoso sua maneira de descrever esse artigo. Parece que retornei ao navio.
Concordo em muitos pontos.
Como não vejo com "olhos clínicos", por não ser minha especialidade, muita coisa passou- me despercebida.
Mas vc, como"expert", viu coisas reais e verdadeiras, que servem de alerta.
Parabéns. É por aí mesmo. Nota mil !!!

Ubirajara disse...

Jacques, n sei como, mas sai com o nome do meu marido. Já tentei mudar, e nada. Desculpe