quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Meus Orgulhos...tenho razão para tê-los! (Parte B)

Uma das grandes virtudes do ser humano, creio eu, é acreditar nas pessoas e dar-lhes a chance de expor seus pensamentos, os pontos de vista, saber escutá-los e poder separar o joio do trigo.
Tenho tentado agir assim o maior tempo possível, já que a vida me fez ver que um Gerente somente será bem sucedido, se ele for respeitado pela admiração que seus subalternos terão por ele, pois na base da força ou da imposição, estaremosdiante de uma gestão de mêdos e inseguranças, o que, certamente, acabará por criar uma administração comparável às do tempo "das chibatadas".
Portanto, baseado nisto, gostaria de relatar um fato que considero como sendo uma grande conquista minha, uma vitória, e um motivo de muito orgulho.
Certa ocasião, trabalhando num restaurante importante, também na função de Gerente Operacional, tive que recompor quase toda a equipe, em função de inúmeros problemas detectados na operação, e para os quais jamais poderia manter meus olhos fechados.
Assim, colocamos um anúncio no jornal convocando profissionais para os cargos de garçons, maîtres e cumins.
Com cada pessoa que eu entrevistava, tentava manter com elas um contato olho-no-olho, pois, realmente, como os olhos são o espelho d'alma, me seria possível detectar  se  haviam inverdades escritas nos CV e nas suas narrativas.
Entrevistei diversas pessoas e percebi que muitos deles não valeria a pena aceitá-los, dado à problemas de ordem emocional, cansaço, ou problemas de bebida, enfim, diferentes situações que não combinavam com o astral que eu queria ver nos candidatos para a formação daquela nova equipe.
No meio deste tanto de gente, apareceu um rapaz, simpático, muito formal, que me disse assim:
- Boa tarde senhor, estou aqui para me candidatar à vaga de garçon.
Respondi:
- OK... pode se sentar e deixe-me ver o seu CV.
Ao lê-lo, surpreendi-me, já que ele nunca havia trabalhado de garçon !!
O máximo que ele havia feito, dentro do ramo de Alimentos e Bebidas, tinha sido como ajudante de barman, o que, obviamente, estaria totalmente fora do perfil o cargo de garçon por ele pretendido.
Expliquei-lhe que não poderia aceitá-lo face a minha necessidade de contratar profissionais com experiência, e que pudessem me ajudar a recompor, urgentemente, a equipe do restaurante, já um tanto desfalcada.
Não conformado com a minha resposta, seguiu insistindo, ponderando que mesmo sem experiência na função ele amava a gastronomia, que era seu sonho poder trabalhar num restaurante daquele porte, que iria se esforçar ao máximo para poder fazer jus a minha possível ajuda, que estudava inglês, etc, etc,...
Como disse no começo desta narrativa, algo me chamou a atenção neste rapaz, pois, olhando-o bem dentro dos olhos, senti que ele estava sendo super verdadeiro, e que a demonstração dos seus sentimentos de amor a esta profissão eram sinceros.
Num lampejo de coragem, ou de loucura, sei lá, lhe disse assim:
- Veja, companheiro, você conseguiu fazer com que eu mudasse meu critério de admissão, pelo menos no seu caso. Não sei o por que, mas algo me diz que você será um bom profissional, e é disto que estou precisando, pessoas sem vícios, honestas e que queiram realmente trabalhar e somar comigo e com o restaurante.
Vou colocar você direto como garçon, quando na realidade, o correto mesmo seria como cumin, portanto, se você não der certo, não me restará outra opção a não ser dispensá-lo.
Então....topa o desafio de me ter no seu pé, direto? (risos)
Ele respondeu, todo formal - (Ipsis litteris)
- Será uma honra para mim poder aprender a trabalhar num restaurante deste nível com um profissional assim, como o senhor, já que pela sua atitude e comportamento, pude perceber que se trata de um homem de caráter, e ainda pela maneira respeitosa que dispensa às pessoas.
E assim, o senhor X, conseguiu que eu o admitisse como garçon no restaurante.
Logo no primeiro dia, percebi que ele tinha um bom equilíbrio com a bandeja, que era super atencioso com os clientes, que prestava atenção em tudo que acontecia ao seu redor, e, o mais importante, seguia ao pé da letra todas as orientações que eu lhe passava.
Com o tempo, fui percebendo que meu instinto de observação, associado a um certo "faro" adquirido nos muitos anos de trabalho em hotelaria, gastronomia e eventos, fizeram com que, do nada, eu tivesse conseguido um bom garçon.
Sim, pois sem nenhuma experiência ou qualquer outro adjetivo, o senhor X se tornou o melhor garçon do restaurante... pasmem, mas é verdade!
Algum tempo depois saí deste restaurante para ir trabalhar num hotel 5 estrelas como Gerente de Alimentos e Bebidas, e deixei o senhor X trabalhando como garçon, aos cuidados de um colega que convidei para ocupar o meu lugar.
Um dia, num sábado à tarde, me encontrava no cabeleireiro, quando o celular tocou, e ao olhar no bina, aparecia o nome dele na tela.
Atendi, e saudei-o, perguntando-lhe a que devia o prazer da sua ligação.
Este me responde:
- Senhor Jacques, estou ligando para poder dedicar-lhe a visão que estou tendo neste momento!
Surpreso, intrigado, e sem entender nada, perguntei-lhe:
- Dedicar-me a visão que você está tendo agora? Você está ficando maluco? (risos)
Ele me disse.....não, senhor, é ao pé-da-letra mesmo o que eu estou falando, pois quero dedicar ao senhor a visão que estou tendo neste instante, de mim mesmo, refletida num espelho da loja Borelli, do Shopping Leblon, onde acabei de fazer os ajustes no terno que irei usar a partir de hoje pois fui promovido à MAITRE do restaurante.
Sinto que devo esta minha conquista ao senhor, portanto, esta felicidade de poder me ver assim, com uma roupa elegante, e pronto para um desafio desta natureza, é que eu queria dedicá-la ao senhor, para soubesse que o considero o responsável por esta minha ascensão.
Obviamente que fiquei sem palavras diante de tal atitude, e demorei a me recuperar da emoção que aquela ação nobre me havia causado.
Quando consegui falar, mesmo com a voz um tanto embargada, somente pude dizer-lhe que agradecia tamanha demonstração de respeito, amizade e consideração, porém, que tomasse cuidado com o sucesso, pois muitas pessoas não sabem lidar com isto, e que dali para frente usasse com todos os seus subaltermos, os mesmos critérios de paciência e ensinamentos que eu havia utilizado com ele.
Boa sorte senhor MAITRE, e que sua mãe continue orgulhosa de você, pois você é que é o verdadeiro merecedor da conquista que obteve.
Conte comigo, sempre!
Jacques .'.

3 comentários:

marinez disse...

Jacques, com certeza tens razôes para se orgulhar dos seus feitos, pois és um GRANDE HOMEM.Comfesso que fiquei emocionada com suas atitudes narradas neste texto, não que eu não as esperasse, mas é que são atitudes tão raras,tão nobres...
Admiro muito seus atos!
Abraços!!!!!!!!!

Jacques Graicer disse...

Marinez,

Fico feliz em perceber que minhas palavras tiveram um efeito legal para você.
Na verdade, a intenção do meu blog é justamente passar emoções para todos que o lerem
Abraços,
Jacques

Cristina disse...

Muito legal. Já tive experiências assim com pessoas - ah, não no seu papel, mas de vê-las seguirem firme e mostrarem um caráter e uma qualidade na atuação inesperada.

Quem sabe nós seus leitores não poderemos saber mais a frente como anda o rapaz na nova função?

Gratidão é das demonstrações mais bonitas desta vida!