quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

GERO - Quem me viu, quem me vê, quem me verá!

Recebi a visita de um amigo suíço que é proprietário de um restaurante bem conhecido em Lugano, chamado Grotto Grillo.
Segundo ele, o cronista gastronômico do importante jornal Corriere della Sera, publicou uma nota afirmando que o melhor foie gras da Suiça era servido no seu restaurante.
Assim, por ser uma pessoa do ramo, um importante Chef de Cozinha, na sua última noite no Rio me pediu para sugerir-lhe um bom local para irmos jantar.
Tracei algumas retas, curvas e tangentes, que apontaram para o renomado Gero, na expectativa de que neste local pudéssemos estar bem servidos, em todos os sentidos.
Gostaria muito que ele levasse daqui do Rio uma boa lembrança gastronômica, já que no jantar da noite anterior, no Porcão Rio's, mesmo com a promessa do meu amigo Almir, o gerente, de que iria zelar pela excelência das carnes e do serviço, tudo foi de uma mediocridade sem igual, resultando, inclusive, em três pessoas com problemas estomacais.
Bem, tomei o cuidado de ligar com antecedência para fazer a reserva de uma mesa, pois sei como funcionam as coisas por lá.
Chegamos na hora marcada e a nossa mesa já nos esperava, bem apresentada, e localizada logo na entrada do restaurante.
Como não queríamos pão, manteiga, etc, alguém colocou um carpaccio de carne no meio da mesa, sem nenhuma explicação para aquele ato, mais parecendo que houve um erro na hora de comandar, ou mesmo na hora de servir.
Bem, pensei, já que nos fizeram esta "gentileza", vamos prová-lo, lastimando que esta suposta cortesia fosse de um prato somente, já que não tinha sido coerente a maneira como ele havia sido servido para nós.
Ao colocar a rubra fatia de carne na boca, me dei conta de que minhas dúvidas anteriores tinham razão de existir, já que o mesmo estava imperativamente quente, como se tivesse ficado parado em algum lugar, sem destino, até que alguem teve a genial idéia de colocá-lo na nossa mesa.
Passado o impacto emocional desta constatação, abrimos mão da "gentileza" e partimos para a escolha dos pratos, onde, na verdade, as opções eram bem reduzidas.
Meu amigo suiço, ainda com os problemas causados pelo jantar da noite anterior, pediu, simplesmente, um spaguetti branco, sem nada, e uma vitela na chapa, com legumes salteados, muito embora o maître o quisesse demover da escolha, explicando que se a vitela não fosse empanada e frita, como está no cardápio, com certeza ficaria dura, porém, o suíço, com conhecimento de causa disse-lhe que era assim que que ele queria comer e pronto.
Ora, não pode existir um argumento deste num restaurante da categoria do Gero, afinal, que vitela é esta?
Eu e meu amigo resolvemos pedir de entrada os ravioles com recheio de pato e molho de laranja, e de suite, peixe, sendo que o dele vinha acompanhado com um risotto de aspargos frescos e o meu, en croûte, com risotto de palmito.
Indo diretamente ao ponto nevrálgico do tema, não entendo bem como um local assim tão especial, com fila na porta todos os dias, e que ganha prêmios e mais prêmios, se permite servir ravioles grotescos, grudados no fundo do prato, e pior, já pré-cozidos, ao invés de uma massa fininha e cozida na hora?
Detalhes como estes, permitidos de acontecerem no Gero, não o são em outros locais, talvez por não terem proprietários tão importantes e ricos.
Os peixes eram de qualidade, carne branquíssima, frescos, porém, de uma rara simplicidade, incomum para um local chique que deveria servir algo de mais requintado para fazer jus a sua fama.
Elogios, gostaria de fazê-los para os guardanapos, que eram grandes, bem passados, e de um tecido de extrema qualidade.
Uma reclamação, e gravíssima, vai para a taça Bourgogne que me trouxeram, pois a mesma estava simplesmente imunda, com restos de comida agarrados na sua base, ao ponto do sommelier suspirar de desgosto ao ver o que eu lhe mostrava, e me pedir mil desculpas.
Outra reclamação vai para o fato de cobrarem o estacionamento, que é terceirizado, na conta do jantar, e sobre o qual, claro, vem ainda a taxa de serviço, em cima de algo que não tem nenhuma relação com o restaurante, gastronomicamente falando.
Fico imaginando se eu, um mero mortal, fizesse algo do gênreo, se no dia seguinte, com certeza, não existiriam manchetes em todos os jornais aludindo a este fato.
A conclusão que podemos tirar desta noite é de que os "points" são criados com a anuência das pessoas que estão mais preocupadas em ver e serem vistas, e poder dizer a todos que estiveram num lugar badalado e caro.
Quem se atreve a fazer uma crítica declarada, mesmo que construtiva, à famosos restaurantes da cidade?
Ninguem quer se expor, portanto, comem e bebem sem se preocupar se está bom ou ruim, desde que seja nestes lugares, pois, em outros, com certeza, espalhariam de imediato o seu descontentamento.
Existem bons restaurantes no Rio, com cartas de vinho bem compostas, onde se come muito bem, mas, como não são badalados e nem paparicados pela mídia, permanecem no obscurantismo, porém, frequentados por quem quer comer bem, com bom serviço e preços justos.
Assim, penso que devemos ser mais exigentes e menos seletivos, para que possamos sair daqui e ir comer foie-gras em Lugano...creio que esta sim, é a pedida certa e chique!
Jacques .'.

6 comentários:

Marcelo disse...

Belo artigo.Como já foi dito a qualidade no atendimento é um fator diferencial para o consumidor,isso todo mundo sabe e deveria não só saber, mas praticar.Recentemendo foi inaugurado o restaurante GERO aqui em Brasília.Já ouvi falar bastante deste restaurante da rede Fasano, e confesso que não tenho tanto interesse em conhecer, é só mais um no universo.Depois deste artigo, o meu interesse passou a não existir. Sei que o fator geográfico influência e que tudo pode ser diferente por aqui, mas prefiro não me arriscar e pagar uma nota para sair insatisfeito. Pagar caro não garante a satisfação e muito menos comida boa.Prefiro o meu risotto,rsrsrs.

Jacques Graicer disse...

Marcelo,

Obrigado pelos seus comentários, pois percebi que você conseguiu captar a essência das minhas palavras na crônica que escrevi.
Continue nos dando seu valoroso apoio.

Piero Pagni disse...

Fiquei surpreso com os acontecimentos e muito chateado com a péssima impressão que teu amigo irá levar p/ a Itália.
Não conheço os outros Geros, mas no daqui de São paulo, acredito que dificilmente aconteceria algo similar.
Talvez a culpa seja desse sistema de franquias...caso o seja.

Jacques,...vc definiu corretamente o que acontece nos estabelecimentos em geral.

Sou dono de 1 e já tive outros e sempre me dá vontade de "chutar o pau da barraca", começando por triplicar os preços e pouco me lixar p/ o atendimento, pois é fato imensurável que todo lugar da moda é caro, atende mal e a comida é uma porcaria...salvo raras excessões.....pelo menos aqui em sampa a respeito dos melhores, mas não tão badalados.

Não quero incendiar a velha rivalidade São Paulo - Rio, mas fatos como os que Vc relatou, em meus 40 anos de "cliente exigente",nunca vi acontecer num Fasano, num Gero, num Tambouile, num Antiquarius, num Ca D'Oro, num Terrazzo Itália, num Barbacoa, num Bovinus ou até na Tal da Pizza onde a pizza mais barata custa 70 reais.
E em mais uns 30 excelentes e caros restaurantes ou similares.

Por outro lado, gostaria de te informar, que eu tambem cobro os 10% sobre o serviço de valet ( que parece ser igual ao meu)...pois o fato de vir na conta, se traduz em o cliente já encontrar seu carro à porta ao sair do estabelecimento, não precisa esperá-lo na calçada, não precisa mexer em dinheiro na calçada e isso tem um custo extra, além de em geral esperarmos 30 dias p/ receber se o pagamento foi em cartão. Sem contar que a operadora nos desconta em média 4%.

De nenhuma forma estou discordando de tua posição, e sim complementando tua indignação.
Abraços e sucesso com teu blog

Jacques Graicer disse...

Estimado Piero,

Primeiramente, muito obrigado pela sua visita no meu blog.
Com certeza seus comentários foram lidos com todo o respeito.
Restaurantes têm que ser restaurantes, ao pé da letra e, na minha opinião, com comida e serviços impecáveis.
Não se pode esperar comer mal e pagar caro, pois é uma incoerência, ainda mais num país onde existem fome e miséria.
Referente à cobrança do Valet Parking na nota, mesmo diante da alegação que você fez sobre o conforto do cliente em não ter que mecher no dinheiro na hora de assumir o volante, imagino que poderia ser dada esta cortesia apenas cobrando o valor em um pequeno papel fora da conta, concorda?
Na Europa, se houver este tipo de cobrança, posso lhe dizer, com toda a convicção, chamariam a polícia, como disse meu amigo da Suiça.
Mas valeu mesmo...adorei sua participação.
Espero que você tenha tido tempo de ler as outras crônicas também.
Abraços fraternais,
Jacques .'.

Anônimo disse...

Jacques,
Entra ano, sai ano e o Olympe do Troisgros segue sendo o melhor restaurante do Rio. Ele consegue trazer o melhor da cozinha francesa adaptada aos produtos brasileiros.
Se seu amigo tiver coragem de voltar nao deixe de leva-lo lah.
Renato

Jacques Graicer disse...

Estimado Renato,
Obrigado por participar do meu blog.
Infelizmente, devo dizer-lhe que meu amigo suiço adora o Rio de Janeiro e vem constantente aqui.
Logicamente, que como ele é um Chef de cozinha importante, em Lugano, busca visitar restaurantes considerados os tops da cidade para poder desfrutar de uma bela noite, onde, claro, estaria incluída além de boa comida e serviço, a descontração e o relax do espaço físico do local escolhido.
Nas duas experiências que tivemos no Olympe, posso lhe afirmar, na condição de um profissional de Alimentos e Bebidas, que sou, que estas foram as piores que eu já tive.
Senão vejamos:
A casa é comandada por um Maitre decadente, mal educado, que nem sequer compareceu à nossa mesa para nos dar as boas vindas, e nos aconselhar o que pedir.
Depois, ainda ficou forçando a barra junto aos garçons para que estes fizessem com que pedíssemos a conta, em face de necessidade da ocupação da mesa por outros clientes que estavam na fila.
Nosso pedido, 4 menus degustação, alem de ser composto por porções ínfimas, ainda veio morno e sem a menor elegância no servir, muito embora, na conta, o valor cobrado tenha sido de proporções astronômicas.
O fato de o Chef Troigros ser premiadíssimo, com certeza deve-se ao fato de que ele conquistou isto com a mão na massa, indo de mesa em mesa, zelando pelos detalhes,etc.
Hoje, ele se preocupa mais com seus empreendimentos do que com a cozinha, então, amigo, o Olympe (nome da sua genitora), só consegue ser o que é, porque tem o nome Troigros, e digo isto de cadeira, pois na Europa, principalmente na França, ou o Chef voltaria para a cozinha a fim de exercer sua profissão, ou seria o último para apagar a luz e ir embora.
Com certeza, existiria mais respeito com os clientes, melhor qualidade de comida, melhor porcionamento dos pratos, etc, além de um serviço mais personalizado, comme Il faut, e com este maitre e a equipe de garçons que estão ali, valha-me Deus!!!
Aquilo é um grupo improvisado de pessoas, para poderem cumprir com o simples ato de trazer e levar, sem a menor preocupação com as regras de etiqueta.
Falta muito para que o conjunto comida, espaço e serviço venham a ser realmente nota 10, no Olympe atual, como merece o Chef Claude, por tudo que representa na gastronomia, mas, que fazer? - Ele não vai mais para a cozinha e seus auxiliares não estão à sua altura.
As pessoas vão comer ali, saem insatisfeitas, pagam caríssimo, porém não abrem a boca, já que seriam consideradas "chatas", pois estariam falando do Chez Olympe.
Meu amigo, nem tudo que reluz é ouro, e a pena, sabe qual é?
Vou lhe dizer: - o sucesso cega as pessoas do mesmo jeito que a mediocridade impera dentro do ser humano.
Temos que lutar contra os dois para sermos coerentes com a verdade, e assim, podermos nos sentir cada vez mais merecedores de um atendimento digno dentro de um restaurante onde você paga muito para ter pouco.
Abraços,
Jacques .'.